Competências do futuro

Quero ser mais competitivo no meu setor

Artigo - 3 de maio de 2021

Por Sebrae-SP  | competência para empreendedores, Soft skills

Para Adriano Mussa, da Saint Paul Escola de Negócios, empreendedor precisa de novas habilidades

O novo cenário do mercado de trabalho decorrente da pandemia terá impactos diretos no empreendedorismo, exigindo novas competências e inovações baseadas em tecnologia. É esse o panorama analisado na entrevista abaixo pelo professor Adriano Mussa, reitor da Saint Paul Escola de Negócios, cocriador e diretor acadêmico e de inteligência artificial (IA) do LIT, plataforma de aprendizagem online da instituição. Para Mussa, que fez pós-doutorado em IA na Columbia University, o pós-pandemia vai exigir um reskilling, isto é, o desenvolvimento de competências pessoais, como pensamento crítico, liderança e influência social.

Qual o conceito de reskilling? Como isso vai ser necessário no mercado de trabalho daqui em diante?

Reskilling significa desenvolver novas competências que incluem conhecimento (saber), habilidade (saber fazer) e atitude (ir lá e fazer). A pandemia acelerou ainda mais a disrupção nos negócios e o novo mercado exige que o profissional seja dono dos skills (competências) que irão impactar seu futuro. Nos últimos tempos, vimos uma série de empresas que romperam com os setores da hotelaria, do transporte, alimentício e de educação, o que impactou diretamente nos empregos existentes. Metodologias ágeis de trabalho foram definidas para modificar a maneira com que fazemos negócios e isso impactou nosso modus operandi e a necessidade do desenvolvimento de competências diferentes para quem quer se manter relevante na nova economia.

Quais serão as principais habilidades que um profissional deve desenvolver para esse novo mercado?

Em outubro do ano passado, o Fórum Econômico Mundial divulgou o “Relatório do Futuro do Trabalho”, que aponta as competências transversais – ou seja, independentes da profissão – que ganharam importância com a digitalização em inúmeros segmentos da indústria. Dessa forma, todos precisam desenvolver essas competências, sejam soft ou hard skills, para poderem aproveitar as oportunidades que estão sendo criadas no mercado de trabalho. Entre as principais competências reveladas pelo estudo, mais de um terço delas estão relacionadas a soft skills: desenvolvidas pelo próprio indivíduo e que nos definem como humanos, por exigirem um alto nível de interação social e alta necessidade de criatividade. Nós, como humanos, precisamos acelerar o nosso processo de aprendizagem para que problemas complexos sejam solucionados em situações que demandam habilidades como pensamento crítico, inovação, liderança e influência social. Nesse caso, técnicas de inovação e aprendizagem ativa são alguns dos caminhos. Já no caso das hard skills, o ponto de atenção é evitar o “analfabetismo digital”, de maneira que entender de tecnologias não é mais uma competência restrita à área de TI.

As transformações provocadas pela pandemia de Covid-19 devem permanecer mesmo quando a ela terminar?

Acredito que sim, especialmente as transformações do mercado de trabalho, porque as novas tecnologias que foram adotadas fortemente durante a pandemia transformam os negócios, e os negócios transformam o mercado de trabalho. A lógica é que a disrupção com tecnologias aplicadas nos negócios será contínua, pois as consequências de um investimento em ferramentas como essas aparecem no médio e longo prazos. Não esperamos que as transformações diminuam ou que a disrupção do mercado de trabalho pare no pós-pandemia. O que pode acontecer é a desaceleração do investimento nessas tecnologias.

Como essas questões podem ser aplicadas ao empreendedorismo?

Vejo uma grande conexão e acho que toda essa situação afeta fortemente o empreendedorismo. Trago como exemplo o empreendedorismo chinês: todos os dias surgem novas empresas baseadas em inteligência artificial, baseadas em blockchain, em IoT (internet das coisas) — são empresas pequenas, startups, mas que já nascem com muita tecnologia. Está cada vez mais desafiador entender de tudo nos negócios e, neste cenário, vemos um aumento na busca por serviços prestados por essas novas empresas, que uma organização maior talvez não tenha know how ou core para desenvolver. Dessa maneira, vemos uma oportunidade no empreendedorismo, mas para um empreendedorismo diferente, baseado em tecnologias, que começa a surgir no Brasil.

Tecnologias como a inteligência artificial parecem muito distantes do dia a dia de um pequeno negócio.  Como é possível trazê-las para a prática?

Há pelo menos cinco anos, vimos essa tecnologia entrar em sua fase de implantação e o custo ficou muito mais acessível: depois de ter tido experiência de aplicar e liderar projetos de IA, penso que a discussão não é mais sobre o custo, mas sobre a expertise em relação ao serviço, de forma que o desafio é ter esse conhecimento e pessoas capacitadas para entender essa tecnologia aplicada. É muito mais uma questão de pessoas preparadas, aptas e capazes. A lógica da inteligência artificial combina muito com o pequeno negócio, já que, na IA não existem grandes projetos. É preciso começar em pequenas iterações (repetições): o produto alcança o cliente, o cliente gera dados, dados analisados pela IA melhoram o produto criando um ciclo virtuoso. Existe aqui uma conexão forte com o empreendedorismo, baseado em tecnologias, com organizações mais sustentáveis no médio prazo.