Empreendedoras buscam capacitação para conciliar vida pessoal e profissional

Quero ser um empreendedor melhor

Artigo - 5 de outubro de 2020

Por Sebrae-SP  | empreendedorismo, Empreendedorismo Feminino, Sebrae Delas

Pandemia sobrecarrega mais as mulheres, que precisam adaptar modo de atuação para encontrar equilíbrio e manter faturamento:

Historicamente, as mulheres assumem jornada dupla de trabalho: aos afazeres domésticos – que recaem quase que totalmente sobre seus ombros – se somam as atividades profissionais. Durante a pandemia, não seria diferente com as empreendedoras, que acabaram sendo mais afetadas dos que os homens pela crise. Pesquisa do Sebrae mostra que 52% delas fecharam seus negócios temporariamente ou de vez, frente a 47% dos homens. Entre as que resistiram, o caminho para manter suas empresas em funcionamento passa por trabalho duro, criatividade e inovação.

“Os impactos da pandemia e a crise econômica foram devastadores para as mulheres. Elas se dedicam, em média, 17% menos horas aos negócios do que os homens. Isso, em grande parte, devido ao traço cultural que delega às mulheres as tarefas domésticas e o cuidado com pessoas. Com isso, elas têm relatado níveis altos de estresse por sobrecarga doméstica e cuidado com os filhos por causa do fechamento das escolas”, afirma Camila Ribeiro, gestora estadual de programas voltados ao fomento do empreendedorismo feminino no Sebrae-SP.

Esse é o caso de Karina Massaro,dona da Constelação Joias, empresa de semijoias localizada em Limeira. Antes da pandemia, seu empreendimento era voltado ao atendimento no atacado; ela fornecia para empresas que compravam seus produtos para dar os últimos retoques e revender ao mercado final. Com a chegada da pandemia e suas consequências, ela viu as vendas do seu negócio de 15 anos despencarem a zero. “Sentimos um baque. Achei que o meu negócio fosse quebrar. Fechei a loja numa sexta-feira já sabendo que não conseguiria abrir na segunda, sem saber o que fazer”, recorda-se.

Mãe de dois filhos, um de dez e outro de 12 anos, ela saiu da loja no último dia de funcionamento com algumas peças para fotografar e começar a anunciar nas redes sociais, mas em um primeiro momento não teve coragem para isso. Com as pessoas apavoradas pela doença e perdendo entes queridos, Karina sentia que ninguém olharia para produtos que, de acordo com o seu entendimento naquele momento, seriam supérfluos. “Cheguei a pensar em mudar de ramo. Mas vi um anúncio da Magazine Luiza vendendo sabão em pó e percebi que algo estava diferente e eu precisava agir também. No fim, cheguei à conclusão de que não poderia deixar toda a minha experiencia e conhecimento de lado e parti para o varejo”, relembra.

Ela tomou ânimo e começou a dar os primeiros passos para movimentar a sua loja virtual e também passou a anunciar em marketplaces, dessa vez com foco no consumidor final. Em sua casa, passou a tirar fotos dos produtos e fazer stories para o Instagram. Venceu a timidez para gravar os vídeos e direcionar o negócio para um novo público, do zero, ao mesmo tempo em que assumiu as tarefas da casa. “Dispensei a ajudante que ficava comigo em casa e continuei mantendo o salário dela. Fiquei muito preocupada com a saúde de todos, especialmente a dos meus filhos. Quando você é mãe, acaba assumindo muitas responsabilidades para que seu filho tenha segurança e conforto”,explica.

Atualmente Karina é responsável por gerenciar seus anúncios em todas as plataformas de vendas online, por todo o conteúdo e postagens das redes sociais e ainda dá conta dos afazeres domésticos e acompanha os filhos nas atividades online. “Graças a Deus, e também às mulheres, descobri que minha visão de produto supérfluo estava errada. Com o distanciamento, conseguimos ajudar muitas amigas a dar presentes sem estar fisicamente juntas. Também recebemos muitos maridos que não sabem o que dar às esposas e nós ajudamos. O faturamento com esse tipo de venda hoje é 50% do que ganho na minha empresa”, comemora.

Karina já havia participado de alguns cursos no Sebrae e durante a pandemia se inscreveu no Programa Enfrentar, em uma turma específica para mulheres na sua região. Segundo ela, o programa a ajudou a entender melhor o contexto de toda a situação e a ampliar a sua visão sobre as novas possibilidades. “Esse curso me ajudou a tirar a timidez, criar mais engajamento e fazer esse relacionamento. Os primeiros vídeos eu gravava mil vezes e quando via, tinha vontade de chorar”, relembra.

Para ela a adaptação exigiu muita resiliência e, num primeiro momento, gerou muito sofrimento. “Ser mulher e trabalhar de casa é ainda mais difícil. Mesmo na pandemia, às vezes eu ia para o escritório para ‘descansar’ um pouco. Meu marido chegou a falar para fechar a empresa, pois não queria me ver sofrendo daquele jeito. Mas não desisti”, comemora. O marido tem um negócio em outro ramo, que foi menos afetado pela pandemia.

O trabalho de Karina é uma prova para outras mulheres de que é possível perder o medo do julgamento e exposição trazidos pelas redes sociais. Para as outras empreendedoras, ela quer deixar o recado de nunca desistir. “É muito difícil lidar com tantas responsabilidades. Mas quando vejo notícia de que a mulher precisou sair do emprego porque a creche estava fechada fica claro que isso só aconteceu porque era uma mulher. Mas não podemos parar”, diz.

Karina voltou a exercer o trabalho presencial assim que foi possível reabrir sua loja. Com toda a experiência adquirida, ela pretende ficar de vez no ramo do varejo e também expandir seus negócios pelas vendas realizadas com revendedoras.

CRIATIVIDADE                                                                                                                                                 

A psicóloga infantil Rayane Campos é outra empreendedora que tem trabalhado para vencer os desafios diários impostos pela nova rotina. Com a chegada da pandemia, ela acabou perdendo clientes, pois muitos pais não quiseram continuar com as crianças em atendimento online. “Eu estava preocupada pensando no que fazer. Um dia, tomando banho, tive a ideia de criar um e-book para crianças”, conta.

Assim ela criou “A casinha e o cachorro Loop”. Ela escolheu o seu cachorro (que se chama Loop) para explicar para adultos e crianças o que está acontecendo nesse momento de tantas mudanças. “Nesse livro, o cachorro dialoga com a casa. A casa fica querendo saber por que todo mundo está estressado. O cachorro, ao assistir à TV, descobre sobre o vírus e conta para a casa. No fim, eles conversam e resolvem elaborar dicas para passar o estresse. Tem atividades para fazer com as crianças, ressaltando a importância do brincar”, explica.

Esse foi o pontapé inicial para as suas outras ações. Rayane começou a movimentar suas redes sociais com divulgações e começou também a usar grupos de WhatsApp como forma de estender seu trabalho. Hoje, ela tem projetos voltados para filhos e pais e também para outros psicólogos, chamado “jogos das emoções”, para que eles apliquem com as crianças no atendimento remoto. “No início a peteca deu uma caída. Mas eu consegui me reinventar. Tenho muitas colegas que não conseguiram atender online e entregaram a sala. A pressão de ser a cuidadora traz uma carga muito maior”, analisa.

MATERNIDADE

A empreendedora Camila Profeta iniciou a Assim Seja, voltada para venda de peças do vestuário católico, em julho do ano passado. Seu foco, antes da pandemia, era expor em eventos e retiros voltados para esse público. Com meses de trabalho no ramo, ela precisou mudar toda a sua atuação. “Eu comecei 2020 com a agenda cheia. Já tinha compromissos até o fim do ano e tudo mudou de uma hora para outra.”

Com a pandemia, ela aproveitou a onda das vendas online e hoje consegue vender para o consumidor final de todo o Brasil. “Fiz parcerias com paróquias e missionários, um trabalho de divulgação nas redes sociais. Agora quero continuar com as vendas online mesmo após a pandemia, sem abrir mão dos eventos. Daqui para frente, minha ideia é disponibilizar kits em consignação, assim eu exponho meus produtos sem todo o desgaste que eventos trazem”, explica.

O impulso para Camila empreender surgiu após alguns episódios turbulentos em seu antigo trabalho, que ilustram bem como o preconceito com mulheres está arraigado no ambiente profissional. Com as mudanças na gestão da empresa, ela já não conseguia conciliar o emprego de carteira assinada com os cuidados com o filho pequeno. “Meu antigo gestor falava abertamente que mulheres que são mães eram funcionárias problemáticas. Isso me abalou muito porque meu sonho era ser mãe e eu tive duas gestações interrompidas antes de meu filho nascer.”

Histórias como as dessas mulheres mostram que, com autoconhecimento e capacitação, é possível encontrar no empreendedorismo uma maneira de conciliar a vida profissional com a vida pessoal – ainda que com algumas turbulências pelo caminho.

SEBRAE DELAS

O Sebrae-SP tem o Movimento Sebrae Delas – Elas Realizam, voltado para fomentar o empreendedorismo feminino. O foco é despertar para o autoconhecimento, aumento da rede de contatos, aumento da competitividade dos negócios liderados por mulheres e acesso a mercado e a crédito orientado.

O programa é composto por quatro pilares: inspiração, capacitação, impacto e mentoria. Em cada uma dessas fases, as empreendedoras participantes têm acesso a orientações voltadas para inteligência emocional e gestão de negócios, além do desenvolvimento de redes de contatos e atitudes empreendedoras – tudo em uma linguagem adaptada para a necessidade e o dia a dia dessas mulheres. Ao todo, são 13 horas de capacitação online e duas horas de mentoria

“Acreditamos que com conhecimento, capacitação, mentoria e contato com outras mulheres empreendedoras, a mulher vai estar ainda mais segura para que suas decisões sejam tomadas e o empreendedorismo seja uma grande ferramenta transformadora na vida dela”, destaca a consultora do Sebrae-SP Camila Ribeiro, gestora do projeto. Para outras informações e inscrições, basta ligar para 0800 570 0800.

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