No campo, gestão contra custos altos

Quero controlar meu dinheiro

Artigo - 1 de setembro de 2021

Por Sebrae-SP  | Agronegócio, empreendedor, Empreendedor Rural

Produtores rurais precisam de planejamento para garantir sustentabilidade econômica em tempos de crise e variação de preços

Os custos da produtora Tereza Camilo de Lima, dona de uma propriedade em Sabino, interior de São Paulo, sofreram um grande impacto durante a pandemia de Covid-19: o óleo diesel dobrou de preço, adubos e sal mineral ficaram mais caros e insumos, como milho e soja, chegaram a faltar. E o preço do leite não acompanhou essas altas. Apesar de todos esses obstáculos, ter conhecimento dos números envolvendo a produção ajudaram Tereza a conseguir conduzir o negócio de forma saudável. Manter todos os controles de gestão da empresa rural, como faz Tereza, é uma exceção na realidade da maioria dos produtores, de acordo com o consultor do Sebrae-SP Marcelo Rondon Bezerra, mas é primordial para garantir a sustentabilidade econômica do negócio.

O consultor ressalta que, ano após ano, o custo de produção está cada vez maior e dependente de variáveis externas, o que impacta diretamente no lucro dos agricultores situação que exige uma profissionalização do produtor rural. Em plena pandemia, a queda no faturamento do agronegócio chegou a 50% em comparação ao período pré-pandemia, segundo pesquisa do Sebrae. “Em geral, o pequeno produtor está engatinhando quando o assunto é profissionalização da gestão da propriedade rural, principalmente com os preços que os insumos estão hoje”, diz Bezerra.

O consultor destaca que o planejamento é a base para tudo. “A pergunta que eu mais escuto é: o que dá dinheiro? E eu sempre volto ao começo do planejamento e questiono: para quem você vai vender?”, destaca. Como exemplo, ele relata o caso de agricultores que focavam na venda para merenda escolar e enfrentaram dificuldades no começo da pandemia, quando as prefeituras paralisaram as compras. Uma saída encontrada foi investir no delivery direto para o consumidor final. O consultor conta que teve casos de agricultores que chegaram a registrar aumento de faturamento de R$ 1,5 mil para R$ 6 mil por mês porque aumentaram o número de itens para venda. “O agricultor que é pequeno pode ter uma diversificação de produtos. É uma questão de planejamento”, afirma.

A lista de recomendações para melhorar a gestão no campo passa ainda pela preocupação com as previsões climáticas, prestar atenção nas altas e baixas dos produtos agrícolas, escolha das variedades corretas, realização de análise do solo e da água, além de fazer o diagnóstico da propriedade, incluindo o cálculo dos custos de produção e fazer um plano de ação. Bezerra destaca que fazer o diagnóstico da propriedade é extremamente importante para conseguir chegar até o cliente.

O próprio produtor precisa fazer um autodiagnóstico sobre o que ele está disposto a fazer na propriedade. “Você está disposto a tirar leite todo dia? Se não estiver, tem que buscar outro produto. Você terá mão de obra? Qual a capacidade de investimento?”, questiona. Um ponto de atenção citado pelo consultor é a definição de uma meta. “Temos produtores que ficam frustrados ano após ano porque nunca chegam a vender o quanto queriam, mas eles nunca falaram quanto queriam. Sempre quero vender mais, mas esqueço de comemorar. Isso é importante em todo andamento do planejamento”, reforça Bezerra. No caso da análise do solo, o consultor conta que muitos produtores usam muito adubo, mas não corrigem a acidez do solo. Se o pH do solo estiver baixo, a planta não vai absorver os adubos adicionados e não vai produzir em todo seu potencial.

EM ORDEM

Quando o tema é bovinocultura de leite, o consultor pontua que é difícil saber como estará o preço do leite nos meses seguintes. Por isso, na hora de fazer a gestão da composição do rebanho, é muito importante que o produtor controle a porcentagem de vacas em lactação estável durante todo o ano. “Dessa maneira, independentemente do momento que o preço subir, ele terá uma ótima quantidade de leite para entregar”, alerta Bezerra. A produtora Tereza, de Sabino, conta com a ajuda da mãe, Gertrudes Giaretta Camillo, de 92 anos, para manter a propriedade em ordem. O trabalho com bovinocultura vem de família. “Manter um rebanho equilibrado com 65% das vacas e 35% de animais de reposição composto por novilhas e bezerras faz com que eu tenha uma renda extra, além da produção de leite”, conta Tereza, que vende todo o leite produzido para o laticínio. No período à frente da propriedade, Tereza já participou de uma série de cursos e aprendeu a planejar o rebanho e o manuseio de novilhas e bezerras. “Aprendi a ter uma nova visão sobre o trabalho no campo”, diz.

APRENDIZADO

A produtora Patricia Antônio, do Sítio Salomão, de Paulistânia, compreendeu a importância do planejamento quando começou a trabalhar com a venda de hortifruti e registrou prejuízo financeiro e desperdício. Ela chegou a enfrentar falta de produtos ou até a situação contrária: plantava de forma exagerada, não dava conta de vender e ficava com os itens estragados. “Percebemos que era preciso planejar”, destaca. A organização da produção envolve o quanto de produto ela vai precisar e para quem ela vai vender para saber quanto precisará plantar, incluindo a margem de perda. Outro ponto importante citado pela produtora é o clima. “O tempo de produção da alface varia dependendo da estação do ano. É preciso levar tudo isso em consideração, além da quantidade de cada item e o tempo de colheita”, explica.

A saída de produtos de acordo com a estação também faz parte da organização. No verão, as verduras são mais vendidas para saladas. No inverno, os legumes são mais usados para cozidos e sopas. “Todas essas questões precisam ser bem planejadas para eu não ter falta de produtos ou desperdício, que vai resultar em prejuízo”, diz a produtora. Como vantagens de um bom planejamento, Patricia cita um aumento da lucratividade e a possibilidade de atender mais clientes com produtos bons e variados. “Não nos envolvemos com gastos desnecessários. É bem melhor planejar antes, temos menos preocupações, o trabalho fica equilibrado e conseguimos ver o espaço que temos para crescer, se podemos plantar outras variedades. Com as noções de planejamento, conseguimos nos organizar melhor para não ter perdas”, finaliza.

COMO MELHORAR A ADMINISTRAÇÃO

DEFINA QUEM SÃO SEUS CLIENTES – Tenha pelo menos três opções de compradores e pesquise qual produto precisam, qual qualidade desejam receber e com que frequência precisam dos produtos.

FIQUE ATENTO AO CLIMA – Antes de iniciar a safra, pesquise sobre o El Niño e a La Niña. Nos últimos dois anos, esses fenômenos climáticos influenciaram diretamente a chuva em todo o Brasil.

PRESTE ATENÇÃO NAS ALTAS E BAIXAS – O aumento no preço da maioria dos produtos agrícolas está bem destacado nos últimos dois anos, mas nessa tendência de alta também há quedas consideráveis. Você precisa estar preparado para elas, tendo uma reserva monetária ou realizando uma gestão das vendas.

ESCOLHA AS VARIEDADES CORRETAS – Antes do plantio, é importante a

escolha da variedade certa do item, de modo que seu solo, sua adubação, seus tratos culturais, sua irrigação e ainda época do ano em que está plantando proporcionem a melhor produtividade.

FAÇA A ANÁLISE DE SOLO – Com uma análise de solo, a recomendação da adubação será na dose certa que a planta precisa para ter uma produtividade que dê lucro.

FAÇA A ANÁLISE DA ÁGUA – Muitos defensivos exigem um pH de aplicação em 4,5, por exemplo. Se aplicado em água de pH 6, esse defensivo não fará nem metade do efeito esperado. Atente-se a isso e busque informação.

CUIDE DA GESTÃO DA PROPRIEDADE – Faça o diagnóstico da propriedade, calcule o custo de produção e trace um plano de ação. Com as margens de ganho apertadas, é muito importante ter o controle financeiro da propriedade na palma da mão para tomar as melhores decisões na gestão.

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